sábado, 18 de abril de 2020

Te conhecendo... E só.


É nostálgico pra mim visitar espaços que fazem parte do meu passado, pois nessas voltas que a vida dá, quando retorno aos mesmos lugares já não sou mais a mesma.

Eu tenho sede de controle, ao mesmo tempo que sou uma pessoa ambígua. Tenho plena consciência de que esse controle não existe. A vida é imprevisível e surpreendente.

Nesse ciclo da vida, retorno a lugares em minha mente que eu não visitava a mais de uma década. É um tanto assustador, confesso.

Me sinto novamente a menina-mulher. A menina que adora falar bobagem, rir até chorar... Gosto da leveza que minhas meninices me dão... Sou menina quando ainda sinto na boca o gostinho de algodão doce cor de rosa, quando invento e escrevo enormes textos sobre a vida e sobre os sentimentos.

A dualidade conflitante é que quando coloco os pensamentos no lugar, faço transparecer a maturidade que carrego comigo. Eu amo fazer coisas de adulto... Mesmo sendo menina me sinto mulher.

Mulher quando leio, estudo, aprendo, me questiono, me desafio. Mulher quando arrisco, assumo, quando tenho coragem, me imponho. Mulher quando perdôo, conquisto, alcanço e consigo. Mulher quando sobrevivo em meio as minhas próprias cobranças, além das cobranças externas.

No fim, não importa. Menina ou mulher, vou continuar essa pessoa com o pensamento as vezes incoerente, medos insanos, sentimentos intensos e uma alma inocente.

Espero que goste, porque eu, to gostando.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Antítese


Pediram um corpo escultural, eu não tinha.
Pediram uma mulher ignorante, eu já tinha lido o suficiente.
Sugeriram que eu não opinasse, eu nunca consegui me calar.
Orientaram que eu não bebesse, eu não pude negar as cervejas.
Pensaram que eu me contentaria com um sub emprego, eu vislumbrei ir mais distante.
Transaram comigo e depois fingiram não me conhecer, eu aprendi a por limites e a filtrar meus relacionamentos.
Disseram que eu mudaria de ideia, que um dia ia querer ser mãe, eu escolhi ser uma ótima tia, uma madrinha excelente, uma segunda mãe.
Compraram vaidades para que eu me adequasse, eu me envaideci aprendendo palavras de ordem.
Exigiram fidelidade e submissão, eu fui livre e rompi, por amor e respeito a mim mesma e somente.
Cagaram mil e uma regras de conduta, eu mandei um belo foda-se, e sorri.

Essa foi uma adaptação de Antítese, de Jenifer Nascimento.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Vida em Branco



Você não precisa de artistas?
Então me devolve os momentos bons
Os versos roubados de nós
As cores do seu caminho
Arranca o rádio do seu carro,
Destrói a caixa de som,
Joga fora os instrumentos
e todos aqueles quadros,
Deixa sua parede em branco
Assim como a sua cabeça,
Seu céu de cimento,
Silêncio cheio de ódio,
Armas pra dormir,
Nenhuma canção pra ninar
E suas crianças em guarda,
Esperando a hora incerta
Pra mandar ou receber rajadas.

Você não precisa de artistas?
Então fecha os olhos,
Mora no breu,
Esquece o que a arte te deu.
Finge que não te deu nada,
Nem um som, nenhuma cor,
Nenhuma flor na sua blusa,
Nem Van Gogh nem Tom Jobim,
Nem o Gonzaga nem Diadorim,
Você vai rimar com números,
Vai dormir com raiva
E acordar sem sonhos, sem nada.
E esse vazio no seu peito
Não tem refrão pra dar jeito.
Não tem balé pra bailar.

Você não precisa de artistas?
Então nos perca de vista.
Me deixa de fora
Desse seu mundo perverso,
Sem verso, sem graça, sem alma.

Autora: Zélia Duncan